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sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

O fim da Dominância!!!

O termo "dominância" foi criado na década 70 pelo Dr. David Mech quando estudava lobos em cativeiro, pois ele percebeu que havia uma hierarquia formada entre os indivíduos. Este termo foi amplamente utilizado em diversos contextos, sendo também aplicado aos cães. Porém, temos um grande problema quando fazemos extrapolações de comportamentos observados em cativeiros para comportamentos de animais em vida livre. Outro grande problema é extrapolar comportamentos de uma espécie para outra, pois lobos são bem diferentes de cães. Pense em comparar norte-americanos com indianos... mesmo que eles falassem a mesma língua, os costumes são diferentes, a forma de se comunicar é diferente e a estrutura social é completamente diferente. Não depende de uma coisa, depende de uma série de fatores que alteram definitivamente o que está sendo comunicado. Por isso, não podemos extrapolar o comportamento de grupos de lobos em cativeiro para todos os cães do mundo todo.
Há ainda uma outra consequência da palavra dominância: ela remete a uma hierarquia fixa, ou seja, para todas as situações, aquele indivíduo é dominante e o submisso nunca tem preferência. Na verdade, se você analisar qualquer cão, vai ver que isso não é verdade... primeiro que um indivíduo nunca é líder em relação a todos os outros indivíduos (como o rei em um povo), depois que sempre há ao menos uma coisa que o suposto submisso tem preferência, como por exemplo um brinquedo, petisco, acesso a um local, entre outros. Isso quebra a suposta lei da dominância, pois se ele é dominante, é uma hierarquia que deveria estar relacionada a tudo.
Em relação a esta tal de hierarquia, um pré-requisito básico para que qualquer tipo de hierarquia exista é que cães sejam animais que vivem em grupo, as chamadas "matilhas", mas na verdade, não existe consenso se realmente cães domésticos são animais de matilha. Vamos entender porque não... Se cães realmente fossem animais de matilha, os cães abandonados (cães ferais), sempre formariam matilhas de cães de rua e não é isso que observamos. Em várias situações, estes cães resolvem ser solitários, às vezes formam grupos sociais, mas existem cães que vivem preferencialmente solitários e se juntam temporariamente a outros devido a algum recurso (abrigo, alimento, acasalamento...). (Para saber mais: http://www.adestradorasofia.blogspot.com.br/2014/01/sera-que-caes-sao-mesmo-animais-de.html)
Muitos adestradores que utilizam a terminologia dominância, dizem que o cão se relaciona com o ser humano como se este fosse da sua matilha... você acha mesmo que cães não conseguem diferenciar indivíduos da sua própria espécie? Bom, pelo que vejo, eles sabem que somos de espécies distintas e se comunicam com as pessoas de uma maneira diferente que se comunicam com seus colegas da mesma espécie. Muitas vezes, cães se olham e se comunicam apenas usando linguagem corporal, mas com humanos, muitas vezes eles precisam latir para conseguirem o que querem. Estudamos no primeiro ano do ensino médio as relação intra e inter-específicas, nelas podemos ver como espécies diferentes e semelhantes interagem entre si, sabendo então diferenciar um coespecífico de um animal de outra espécie. 
O mais importante nisso tudo isso é observar que a dominância remete a um ser rebelde, que precisa de comando, limites, repressão, punição, controle... O termo dominância justifica que diversas técnicas punitivas e repressivas seja utilizadas. A dominância é imposta agressivamente, sem compreensão, pois se ele é dominante a única compreensão é que o cão precisa de controle e você colocará este controle agressivamente...  
Bom, quando destruímos a ideia de "dominância", além de ficarmos sem os termos relacionados, como "hierarquia", "líder", "dominante", "submisso"..., ficamos sem saber como explicar o que ocorre entre os cães. Eu fiquei um tempo perdida neste vazio, mas ao destruir esta visão de dominância, eu ganhei milhares de outras de  saídas: o cão pode estar com medo e estar apresentando agressividade por medo, o cão pode estar se sentindo inseguro e atacar para se proteger, o cão pode estar precisando gastar energia e o faz da maneira que lhe vem à cabeça e o mais importante: há uma falha na comunicação entre o cão e seu dono. Engraçado que vários destes diagnósticos eu já fazia associado à justificativa da dominância, mas quando vemos o cão como ele realmente está, fica muito mais fácil de explicar os comportamentos, fazer diagnósticos e tratamentos de problemas comportamentais. A dominância era como um filtro embaçado que atrapalhava minha visão. Tente esquecer da dominância e olhar para os cães, interpretando-os. Tente evitar antropomorfismos, ou seja, atribuir características humanas aos cães. Tente apenas ver o cão, como ele realmente é: o seu cachorro!!!
Ah, sim, para finalizar: um vídeo do próprio David Mech explicando o equívoco da utilização do termo "dominância":  http://www.youtube.com/watch?v=p3OJz41fIxI

Ps1: Se você está inconformado com o que acaba de ler, pois contraria o que você assistiu no programa do "Encantador de Cães", assista o programa no mudo e faça a sua própria interpretação, analise inclusive as técnicas utilizadas pelo Cesar Millan, veja se elas estão sendo eficazes ou se apenas reprimem os sinais comunicativos dos cães, analise se o cão está estressado, como o cão está se comunicando, e visualize as técnicas punitivas. Ah, e não se esqueça, aquilo é apenas um programa de televisão, possui cortes e você não sabe o que se passa por de trás das câmeras. Você não sabe como ficou o comportamento do cão depois que "O encantador de cães" foi embora e o programa acabou...
Ps2: Especialistas falando sobre o programa do Encantador de Cães:
http://caosciencia.blogspot.com.br/2008/12/cesar-millan-toda-verdade.html

Segue abaixo o texto do link acima:
"A National Geographic submeteu ao Dr. Andrew 4 cassetes do programa "O encantador de cães" antes deste ir para o ar, para que fosse analisado e eles tivessem uma opinião acerca do mesmo. Está aqui a carta escrita pelo conceituado veterinário à National Geographic que como todos sabemos foi ignorada. O texto foi retirado na íntegra daqui!
Por Andrew Luescher, DVM, Veterinário especialista em Comportamento Canino
Clínica de Comportamento Animal
Universidade de Purdue

Eu revi as 4 cassetes enviadas para mim pela National Geographic. Agradeço a oportunidade de poder visioná-las antes do programa ser transmitido na televisão. Eu terei muito prazer em rever quaisquer programas que lidem com comportamento de animais domésticos e acredito que esta é uma das responsabilidades da nossa profissão.
Eu estou envolvido na formação contínua de treinadores de cães nos últimos 10 anos, primeiramente através do programa universitário “Como os cães aprendem” na Universidade de Guelph (Colégio Veterinário de Ontário) e posteriormente através do curso DOGS! na Universidade de Purdue. Como tal, estou bem ciente onde se situa o treino canino hoje em dia, e devo dizer que as técnicas usadas por Millan são ultrapassadas e inaceitáveis não só para a comunidade veterinária, mas também para muitos treinadores de cães. A primeira questão no que toca às cassetes enviadas que eu coloco é: O programa repetidamente avisa as pessoas para não tentarem aquelas técnicas em casa. Então qual é o propósito deste show? Penso que temos que ser realistas: as pessoas vão tentar estas técnicas em casa, infelizmente para detrimento do seus animais.
As técnicas de Millan são quase exclusivamente baseadas em duas técnicas apenas. “Flooding” e castigo positivo. No “flooding” o animal é exposto ao estímulo a que lhe causam medo (ou agressão) e impedido de evitar e sair da situação, até que pare de ter uma reação. Para usar um exemplo humano: aracnofobia, sera tratada, fechando um indivíduo num armário, libertando centenas de aranhas lá dentro e mantendo a porta fechada até que a pessoa parasse de reagir. A pessoa talvez se curasse com tal método, mas poderá também ficar severamente perturbada e terá sofrido uma grande quantidade de stress. “Flooding” tem, como tal, desde sempre sido considerado um método de tratamento cruel e que incorre muitos riscos.
Castigo positivo refere-se à aplicação de um estímulo aversivo ou correção como consequência de um comportamento. Existem muitas preocupações acerca do uso do castigo, que vão para além do próprio desconforto do mesmo. 
Castigos são extremamente inapropriados para o tratamento da maioria de agressões e para o tratamento de qualquer comportamento que involva ansiedade. O castigo pode suprimir a maioria do comportamento, mas não resolve o problema que o originou, isto é, o medo ou a ansiedade. Mesmo em casos onde a aplicação do castigo é correta, esta pode ser considerada inapropriada, muitas são as condições que têm que ser reunidas para que isto aconteça, e que a maioria dos donos de cães não conseguem fazer. O castigo deverá ser aplicado cada vez que o comportamento é demonstrado, dentro de meio segundo do comportamento ser demonstrado e à intensidade correta.
A maioria das explicações teóricas que Millan fornece como causas para os problemas comportamentais estão erradas. Nem um único destes cães tem um problema de dominância. Nem um só destes cães queria controlar a família. A única coisa na qual ele tem razão é que calma e consistência são extremamente importantes, mas estes factores não justificam os métodos presentemente usados por ele como apropriados ou justificáveis.
O último episódio (problema obsessivo compulsivo) é particularmente preocupante, porque este problema está diretamente relacionado com um desiquilíbrio nos níveis e receptores neurotransmissores e é como tal uma condição médica. Seria apropriado tratar uma pessoa com um problema de obsessão-compulsiva através de castigos? Ou ter um leigo a tratar tais casos?
Eu e os meus colegas e um sem número de líderes na comunidade de treino canino temos trabalhado durante anos para eliminar precisamente tal crueldade, ineficácia (em termos de cura) e técnicas inapropriadas como as apresentadas neste programa."

Dúvidas, críticas, sugestões?

4 comentários:

  1. Gostei muito do texto. Bem explicado e com bons argumentos. Procurar saber a causa do transtorno e achar um solução especifica para um certo caso, dá muito mais trabalho, exigindo paciência para colher dados através da observação com percepção de conhecedora do assunto. Acho que entender e resolver o problema dessa forma é mais eficaz evitando seu retorno.

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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    1. Interessante sua abordagem, Sofis! Via com muito estranhamento a forma impositiva com que o "encantador de cães" "dominava" os animais do programa e após nossas conversas sobre os cães lá de casa fiquei mais descrente ainda daqueles métodos. Problematizar a relação do cão com seu dono vai muito além de colocar tudo na caixinha da dominância, até porque os sentimentos de medo, insegurança e pouco afeto falam muito mais do que essa noção simplificada. Gostei da sua abordagem! =)

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    2. Que bom, Mayra. É muito gratificante poder ajudar pessoas a conviverem melhor com seus cães.
      Fico feliz que você tenha gostado!!! :)

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